GABARITA

Inoversa Sul 2024 · Língua Portuguesa · Tipologia e Gêneros Textuais

Questão 78

Texto-base

Pode-se verificar em que medida, em Dom Casmurro, Machado de Assis inova o tema: em primeiro lugar, ele abandona o clichê da mulher simultaneamente romântica e entediada, mesmo porque o leitor, por acompanhar a narrativa desde o foco de Bento Santiago, não tem acesso à interioridade de Capitu. Esse é, pois, o segundo elemento inovador proposto por Machado de Assis: a perspectiva é dada pelo marido traído, que, porém, nunca domina inteiramente a situação. Assim como não consegue conduzir sua vida de modo independente, permitindo que outros resolvam seus problemas, ele não tem sucesso ao tentar controlar a narração, razão porque o leitor não fica plenamente convencido do adultério de Capitu. O narrador não é, pois, inteiramente confiável, já que Machado de Assis semeia ao longo do texto uma série de dúvidas e incertezas, que minam a convicção que Bento Santiago procura transmitir. O romance acaba por abalar as certezas que se poderia ter em relação a seu assunto, já que o juízo relativamente à infidelidade conjugal de Capitu fica em suspenso. Por essa atitude, pode-se medir a coragem de Machado de Assis ao tratar a questão; afinal, seus precursores, entre os quais os renomados Gustave Flaubert e Eça de Queirós, não titubearam ao condenar as esposas pérfidas, pois essas prevaricam aos olhos do leitor. Além disso, a sociedade brasileira da época de Machado de Assis era fortemente machista, e a mera suspeita de adultério era motivo suficiente para um marido condenar a esposa. Evidencia-se o modo como o escritor brasileiro aceita compor um romance na contracorrente das ideologias vigentes e das tendências literárias dominantes. Ao romper com os paradigmas literários e sociais relativos ao adultério e à condição da mulher na sociedade brasileira, ele produz uma obra revolucionária que acabou por se converter em um clássico respeitado pela história da literatura brasileira.

Fonte: Regina Zilberman. Recepção e leitura no horizonte da literatura. In: Alea: Estudos Neolatinos. V. 10, N. 1, janeiro-junho 2008, p. 95 (com adaptações).

Considerado o exposto no quinto período, é coerente afirmar, em relação ao texto, que a “coragem de Machado de Assis”, mencionada no sexto período, pode ser medida por meio do contraste entre o autor brasileiro e os estrangeiros Gustave Flaubert e Eça de Queirós, quanto ao modo de abordar o tema do adultério.

Ao primeiro contato com um texto qualquer, por mais

simples que ele pareça, normalmente o leitor se defronta com a

dificuldade de encontrar unidade por trás de tantos significados

que ocorrem na sua superfície. Numa crônica ou numa pequena

fábula, por exemplo, surgem personagens diferentes, lugares e

tempos desencontrados e ações as mais diversas. Na primeira

leitura, parece impossível encontrar qualquer ponto para o qual

convirjam tantas variáveis e que dê unidade à aparente desordem.

Mas, quando se trata de um bom texto, por trás do aparente caos,

há ordem. Quando, após várias leituras, encontra-se o fio

condutor, a primeira impressão de desagregação cede lugar à

percepção de que o texto tem harmonia e coerência. Para

exemplificar o que foi dito, vamos ler uma pequena fábula de

Monteiro Lobato e tentar demonstrar que, a partir da observação

dos dados concretos da superfície, pode-se chegar à compreensão

de significados mais abstratos, que dão unidade e organização ao

texto.

Status: valida.

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