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1 Não faz muito tempo, fui assistir à ópera As Bodas
de Fígaro, de Mozart. Aproximando-se o final do
espetáculo, o personagem mais importante, Fígaro, faz um 4 comentário cruel a respeito das mulheres. Na montagem
que vi, o diretor de cena teve a ideia de acender as luzes da
plateia durante o canto de Fígaro, que saiu do palco e 7 dirigiu-se aos homens presentes.
Logo atrás de mim, uma senhora furiosa
levantou-se. Fez o sinal de “não” nas fuças do pobre cantor 10 e retirou-se protestando em voz alta. Pensei que ela poderia
ter prestado mais atenção. O tema nuclear de As Bodas de
Fígaro é atual: trata-se de desmascarar, denunciar e punir 13 um poderoso aristocrata que é violento predador sexual.
Aquela senhora furiosa revoltou-se antes do tempo
e não viu a condenação do conde brutal. Tal 16 suscetibilidade, decorrente da situação inferior em que, do
modo mais injusto, as mulheres são mantidas em nossas
sociedades, é compreensível. Mas indignou-se cedo 19 demais.
Indignação: eis o problema. Nunca tive simpatia por
essa palavra. Pressupõe cólera e desprezo. Quando estamos 22 sozinhos, a indignação nos embriaga como se fosse uma
droga. Arrebata a alma, enfurece as vísceras, dilata os
pulmões e nos faz acreditar na veemência do nosso ódio. 25 Viramos heróis justiceiros diante de nós mesmos.
A solidão indignada faz grandes discursos interiores
contra aquilo que erigimos como inimigo. Serve para dar 28 boa consciência. É um prazer solitário. Exaltados,
arquitetamos vinganças e reparações. Depois, o balão
murcha, sobrando apenas nossa miserável impotência. 31 Ao se manifestar na presença de outra pessoa, ou de
duas, ou em um pequeno grupo, a indignação leva ao
descontrole. Nervosos, falamos alto e dizemos coisas que, 34 na calma, jamais pronunciaríamos. Porque não somos mais
nós que falamos, mas algo que está em nós e que ocupou
nosso corpo esvaziado de qualquer poder reflexivo: a 37 indignação.
Fonte: Jorge Coli. A indignação enfurece as vísceras e nos embriaga como se fosse droga. Internet: <www.folha.com.br> (com adaptações).
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capitalismo do final do século XX, cabe-nos estabelecer quão
profunda e fundamental pode ter sido a mudança. São abundantes
os sinais e as marcas de modificações radicais em processos de
trabalho, hábitos de consumo, configurações geográficas e
geopolíticas, poderes e práticas do Estado etc. No Ocidente, a
produção em função de lucros permanece como o princípio
organizador básico da vida econômica.
David Harvey. Condição pós-moderna. 2012, p. 117 (com adaptações). Tendo esse fragmento de texto como referência inicial, julgue os itens que se seguem, acerca do processo de produção capitalista a partir da segunda metade do século XX e seus desdobramentos no espaço geográfico.
No Brasil, as desigualdades na divisão espacial do trabalho estão atreladas ao determinismo regional e sua dialética é fruto da linearidade histórica. JUSTIFICATIVA - ERRADO. O determinismo não explica as desigualdades regionais, haja vista seu pressuposto de que o ser humano é produto do meio e, por isso, não é capaz de modificá-lo para vencer as dificuldades sociais. Outro erro está no trecho “sua dialética é fruto da linearidade histórica”, pois a linearidade é incompatível com a dialética, já que esta segue um curso em que os percalços do caminho histórico servem como elementos estruturantes da tese, da antítese e da síntese frente ao materialismo histórico.
Inovações técnicas e organizacionais na agricultura