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1 Não faz muito tempo, fui assistir à ópera As Bodas
de Fígaro, de Mozart. Aproximando-se o final do
espetáculo, o personagem mais importante, Fígaro, faz um 4 comentário cruel a respeito das mulheres. Na montagem
que vi, o diretor de cena teve a ideia de acender as luzes da
plateia durante o canto de Fígaro, que saiu do palco e 7 dirigiu-se aos homens presentes.
Logo atrás de mim, uma senhora furiosa
levantou-se. Fez o sinal de “não” nas fuças do pobre cantor 10 e retirou-se protestando em voz alta. Pensei que ela poderia
ter prestado mais atenção. O tema nuclear de As Bodas de
Fígaro é atual: trata-se de desmascarar, denunciar e punir 13 um poderoso aristocrata que é violento predador sexual.
Aquela senhora furiosa revoltou-se antes do tempo
e não viu a condenação do conde brutal. Tal 16 suscetibilidade, decorrente da situação inferior em que, do
modo mais injusto, as mulheres são mantidas em nossas
sociedades, é compreensível. Mas indignou-se cedo 19 demais.
Indignação: eis o problema. Nunca tive simpatia por
essa palavra. Pressupõe cólera e desprezo. Quando estamos 22 sozinhos, a indignação nos embriaga como se fosse uma
droga. Arrebata a alma, enfurece as vísceras, dilata os
pulmões e nos faz acreditar na veemência do nosso ódio. 25 Viramos heróis justiceiros diante de nós mesmos.
A solidão indignada faz grandes discursos interiores
contra aquilo que erigimos como inimigo. Serve para dar 28 boa consciência. É um prazer solitário. Exaltados,
arquitetamos vinganças e reparações. Depois, o balão
murcha, sobrando apenas nossa miserável impotência. 31 Ao se manifestar na presença de outra pessoa, ou de
duas, ou em um pequeno grupo, a indignação leva ao
descontrole. Nervosos, falamos alto e dizemos coisas que, 34 na calma, jamais pronunciaríamos. Porque não somos mais
nós que falamos, mas algo que está em nós e que ocupou
nosso corpo esvaziado de qualquer poder reflexivo: a 37 indignação.
Fonte: Jorge Coli. A indignação enfurece as vísceras e nos embriaga como se fosse droga. Internet: <www.folha.com.br> (com adaptações).
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mesmo que não tenha uma evidência empírica no nosso espaço de vivência e que esteja vinculada mais diretamente a dilemas de ordem teórica, não é mera representação/generalização enquanto instrumento (necessário) para o entendimento do mundo; é também criação de realidades — e, assim, de alguma forma, instrumento de poder, pois novos conceitos também carregam, sempre, ainda que tantas vezes de forma velada, a força de produzir (outras) verdades.
Rogério Haesbaert. Regional-global: dilemas da região e da regionalização na
geografia contemporânea. Rio de Janeiro: Bertrand, 2010, p. 183 (com adaptações). Com referência ao assunto do fragmento de texto apresentado, julgue os seguintes itens, considerando concepções epistemológicas para os conceitos de região e regionalização.
A regionalização brasileira em regiões geoeconômicas seguiu o critério de delimitação de fronteiras estatais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dividindo-se o Brasil em três macrorregiões. JUSTIFICATIVA - ERRADO. A regionalização geoeconômica proposta pelo geógrafo Pedro Geiger, em 1967, constitui-se de três macrorregiões, mas não seguiu as divisões dos estados brasileiros como a regionalização oficial do IBGE. Geiger criticou as regionalizações feitas pelo IBGE, por seguirem a divisão fronteiriça dos estados e não abarcarem corretamente estudos geoeconômicos regionais em um período de crescimento econômico e de primórdio de desconcentração industrial, assim como de desigualdades de poder existentes entre o Centro-Sul, como região concentrada; o Nordeste, como de ocupação primordial e histórica; e a Amazônia, como fronteira do capital mediante os recursos a serem explorados.
