Texto 1 de 1
O rio de minha terra é um deus estranho.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração, muitas vezes homicida, foi ele quem levou o meu irmão.
É muito calmo o rio de minha terra.
Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas a maldição de Crispim desce sobre as águas encrespadas.
O rio de minha terra é um deus estranho.
Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.
Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente, carregando no seu dorso bois e gente, até roçados de arroz e de feijão.
Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas, deixando no percurso mágoa e dor.
Depois subiu os degraus da igreja santa e postou-se horas sob os pés do Criador.
E desceu devagarinho, até deitar-se novamente no seu leito.
Mas toda noite o seu olhar de rio fica boiando sob as luzes da cidade.
Fonte: (Adaptado de: MORAES, Herculano. O rio da minha terra. Disponível em: **https://www.escritas.org**)
A figura de linguagem predominante no verso "O rio de minha terra é um deus estranho” é a