Texto 1 de 1
Meu nome é Artur, mas pode me chamar de Pinguim (depois explico). Jogo de centroavante no infantil do São Cristóvão, moro no Rio de Janeiro, tenho 12 anos e sou seu fã.
Meu melhor amigo (nível 1) é o Parede, zagueiro do nosso time. Meu outro melhor amigo (nível 2) se chama seu Almeida, tem 60 anos e é meu vizinho lá na vila.
Pra você ver a coincidência: moro numa casa de vila que fica no bairro de Vila Isabel e ainda por cima morei também na Vila da Penha e na Vila Valqueire antes de vir pra cá. Por causa disso, o nosso técnico lá no São Cristóvão vive dizendo que estou no time errado, devia jogar era no Santos, que tem o campo dele na Vila Belmiro.
Não acho graça nenhuma, sinceramente. Não é por nada, não, só porque a piada é boba mesmo, não tem nada a ver, mas toda vez que ele diz isso eu prefiro dar pelo menos um risinho amarelo, pra ele não me colocar no banco, como já aconteceu.
O nosso técnico gosta de ser chamado de Professor. Não fez faculdade nem nada, acho que ele nem terminou a escola, mas todo técnico agora virou professor, você sabe, e ai de quem chamar o nosso pelo nome de verdade, que eu nem sei qual é, pensando bem.
Sei que não pega bem ficar falando mal de técnico, ainda mais que o nosso deve ganhar uma merreca por mês, coitado, e deve estar ali porque gosta mesmo de futebol e acho até que gosta um pouco da gente também, mas, cá entre nós, técnico assim é duro de aturar, você não acha, Ronaldo?
Eu estava contando dos meus dois melhores amigos. Foi por causa deles que resolvi escrever esta carta e espero que ela chegue sã e salva aí na Espanha e você possa me responder um dia. Só peço que não demore muito porque, enquanto você não me escrever de volta contando a verdade sobre o que vou perguntar, nunca vou poder mostrar pro Parede que ele é um idiota, e eu gostaria muito de dizer isso pra ele.
Foi o Parede quem me sugeriu escrever esta carta e foi o seu Almeida quem reforçou a ideia, lembrando que para ser escritor precisa treinar muito, que nem jogador de futebol, e uma boa forma de treinar pra escritor é escrevendo carta, ele me disse.
O seu Almeida é escritor, Ronaldo, já publicou um montão de livros, mas pelo jeito não venderam muito porque ele não é famoso nem nada e mora lá na casinha dele sem luxo nenhum, vivendo nem sei bem de quê. O seu Almeida sempre desconversa quando pergunto como ele ganha dinheiro. Umas rendas aí, umas rendas aí, ele responde, e eu fico sem entender xongas. Bandido eu sei que ele não é, aposentado também não, pelo menos ele me diz que nunca teve carteira assinada e meu tio Álvaro me disse que sem carteira assinada não tem como se aposentar. Então, eu realmente não sei, é um mistério.
CARNEIRO, Flávio. Prezado Ronaldo. São Paulo: Edições SM, 2. ed., 2017, com adaptações.
A palavra “carteira” (linhas 52 e 53), no texto, corresponde a um documento oficial. Em outros contextos, no entanto, esse vocábulo pode adquirir outros sentidos, tais como mesa escolar, acessório para guardar dinheiro, entre outros. Esse fenômeno que denota os variados sentidos que uma mesma palavra pode adquirir denomina-se