criado oficialmente em 1991, o Mercosul é o bloco econômico formado inicialmente por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai com o objetivo de promover a integração econômica e a promoção do livre comércio entre os países sul-americanos membros Texto: Escrever para quê? quilombolas com a terra, e que me fez conhecer o Itamar Vieira Jr. Brasil em sua diversidade e profundidade. Graças à sua delicada paciência e Este deveria ser um texto sobre o poder da capacidade de ensinar e envolver seus literatura de nos deslocar para o lugar do outro. aprendizes, aprendi sobre o jarê, sobre o sistema Como leitor e autor compreendo que esse talvez de morada que substituiu o sistema escravista em seja um dos sentidos mais proeminentes da ficção. muitas regiões do país após a Abolição. Deslocar-se para o lugar do outro expande Muitos não sabem, mas seu rosto e sua nosso horizonte, por natureza limitado, e voz de liderança se fundem aos de Bibiana, reestabelece entre nós o exercício da alteridade. personagem de “Torto Arado”, na livre adaptação Sendo assim, é provável que, em um mundo onde teatral da premiada diretora Christiane Jatahy — vige o altericídio, a incapacidade de coexistir com “Depois do Silêncio” —, que já percorreu mais de o diferente, a literatura nos devolva algo dez países na Europa e continua a encontrar seu importante. Mas, às vezes, a ficção parece ser público narrando uma das faces do drama apenas um grito no vão da vida, sem qualquer fundiário brasileiro. Mesmo tendo emprestado seu utilidade ou função, como dizem os que sempre corpo para contar o Brasil, ela se encontra em tiveram voz. risco. Enquanto escrevia para esta coluna, Enquanto eu escrevia o romance, a recebi uma mensagem de uma amiga, professora, mesma comunidade viveu um dos eventos mais liderança da comunidade quilombola de Iúna, tristes de sua história quando seis trabalhadores localizada na Chapada Diamantina. Uma rurais foram assassinados em circunstâncias mensagem que me comoveu, porque neste país a nunca esclarecidas. Muitos precisaram se afastar vida dos que foram historicamente subalternizados temporariamente do território onde nasceram e permanece em risco, desde o nosso passado cresceram, sem que o poder público fizesse o colonial e escravista que continua a nos suficiente para protegê-los. assombrar. A literatura registrou nas páginas do livro o Precisei interromper minhas intenções drama humano que nos assola de forma aviltante, iniciais para escrever sobre o que importa, sobre o mas certamente não é capaz de atos práticos para agora, sobre os ameaçados, já que quem escreve, proteger os que precisam ser protegidos. É preciso penso, deve refletir sobre seu tempo. que as autoridades compreendam os riscos e se Na mensagem, ela me relatava que a casa antecipem às ameaças que têm ceifado vidas onde vive tinha sido incendiada. Tinha perdido desde que o Brasil é Brasil. quase tudo, restando alguns poucos utensílios da Se a literatura pode suscitar a empatia dos cozinha. Para os que vivem na comunidade que leem, escrever sobre a realidade, sobre os que quilombola, o incêndio criminoso transmite uma têm suas vidas ameaçadas, pode nos convocar à mensagem importante: a vida dos que defendem responsabilidade pelos que continuam marcados justiça social para os vulneráveis da história para morrer? continua em risco. Escrevo para tornar a vida dessa liderança A literatura se alimenta da capacidade de responsabilidade de todos nós que nos observarmos o mundo à nossa volta, de importamos com o outro e defendemos um país evocarmos a memória e de, também, imaginarmos mais justo para todos. vidas e histórias. Essa liderança — que não se Adaptada de: sente segura nem mesmo para revelar seu nome https://www1.folha.uol.com.br/colunas/itam ar-vieira-junior/2024/02/escrever-para- — é uma das muitas pessoas que me ensinaram que.shtml sobre nós mesmos, sobre a relação dos