utilizar uma câmera artesanal para captar a luz e gravá-la sobre papel fotográfico mensagem importante: a vida dos que defendem Texto: Escrever para quê? justiça social para os vulneráveis da história Itamar Vieira Jr. continua em risco. A literatura se alimenta da capacidade de Este deveria ser um texto sobre o poder da observarmos o mundo à nossa volta, de literatura de nos deslocar para o lugar do outro. evocarmos a memória e de, também, imaginarmos Como leitor e autor compreendo que esse talvez vidas e histórias. Essa liderança — que não se seja um dos sentidos mais proeminentes da ficção. sente segura nem mesmo para revelar seu nome Deslocar-se para o lugar do outro expande — é uma das muitas pessoas que me ensinaram nosso horizonte, por natureza limitado, e sobre nós mesmos, sobre a relação dos reestabelece entre nós o exercício da alteridade. quilombolas com a terra, e que me fez conhecer o Sendo assim, é provável que, em um mundo onde Brasil em sua diversidade e profundidade. vige o altericídio, a incapacidade de coexistir com Graças à sua delicada paciência e o diferente, a literatura nos devolva algo capacidade de ensinar e envolver seus importante. Mas, às vezes, a ficção parece ser aprendizes, aprendi sobre o jarê, sobre o sistema apenas um grito no vão da vida, sem qualquer de morada que substituiu o sistema escravista em utilidade ou função, como dizem os que sempre muitas regiões do país após a Abolição. tiveram voz. Muitos não sabem, mas seu rosto e sua Enquanto escrevia para esta coluna, voz de liderança se fundem aos de Bibiana, recebi uma mensagem de uma amiga, professora, personagem de “Torto Arado”, na livre adaptação liderança da comunidade quilombola de Iúna, teatral da premiada diretora Christiane Jatahy — localizada na Chapada Diamantina. Uma “Depois do Silêncio” —, que já percorreu mais de mensagem que me comoveu, porque neste país a dez países na Europa e continua a encontrar seu vida dos que foram historicamente subalternizados público narrando uma das faces do drama permanece em risco, desde o nosso passado fundiário brasileiro. Mesmo tendo emprestado seu colonial e escravista que continua a nos corpo para contar o Brasil, ela se encontra em assombrar. risco. Precisei interromper minhas intenções Enquanto eu escrevia o romance, a iniciais para escrever sobre o que importa, sobre o mesma comunidade viveu um dos eventos mais agora, sobre os ameaçados, já que quem escreve, tristes de sua história quando seis trabalhadores penso, deve refletir sobre seu tempo. rurais foram assassinados em circunstâncias Na mensagem, ela me relatava que a casa nunca esclarecidas. Muitos precisaram se afastar onde vive tinha sido incendiada. Tinha perdido temporariamente do território onde nasceram e quase tudo, restando alguns poucos utensílios da cresceram, sem que o poder público fizesse o cozinha. Para os que vivem na comunidade suficiente para protegê-los. quilombola, o incêndio criminoso transmite uma A literatura registrou nas páginas do livro o drama humano que nos assola de forma aviltante, mas certamente não é capaz de atos práticos para proteger os que precisam ser protegidos. É preciso que as autoridades compreendam os riscos e se antecipem às ameaças que têm ceifado vidas desde que o Brasil é Brasil. Se a literatura pode suscitar a empatia dos que leem, escrever sobre a realidade, sobre os que têm suas vidas ameaçadas, pode nos convocar à responsabilidade pelos que continuam marcados para morrer? Escrevo para tornar a vida dessa liderança responsabilidade de todos nós que nos importamos com o outro e defendemos um país mais justo para todos. Adaptada de: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/itam ar-vieira-junior/2024/02/escrever-paraque.shtml