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Frederico
Chamava-se Frederico. Era belo, de porte elegante e tinha uma voz potente e afi nada. Seu maior defeito era, talvez, a vaidade, pecado de resto perdoável, já que não tinha culpa de ser tão bonito e de dar tanta sorte com as galinhas.
Entre as qualidades de Frederico salientava-se uma valentia realmente espantosa, que jamais lhe faltava, na hora de defender seus interesses. Contudo, era discreto, não provocava ninguém, e tinha esse raro predicado: um espírito conciliador. Estas são, em linhas gerais, as principais características de Frederico. Acrescente-se que nasceu sem mãe e teremos completados os dados iniciais.
Nasceu numa chocadeira – pois esta é a história sincera de Frederico, o Galo. Num momento de rara inspiração poética, a copeira trouxe para casa, entre as compras da feira, um inútil pintinho amarelo. Largou-o no chão da copa e explicou.
- Fiquei com pena dele, coitadinho. Estava tão triste, lá, tão sozinho!
E contou o que o vendedor lhe dissera. Tratava-se do resultado do único ovo vingado de uma dúzia deles, colocados alguns dias antes, numa chocadeira elétrica.
Ouvindo tudo calados, estávamos nós, os de casa, surpresos e encantados com aquele pintinho miúdo, quieto, que se limitava a dar pios fi ninhos e descompassados, talvez de frio, talvez de fome, ou, simplesmente, de aprovação às palavras da copeira.
Naquele mesmo dia fi cou sendo Frederico. Andava lendo coisas de García Lorca, [...] Lembrei-me de algo que o poeta contara a respeito de um galo e resolvi que em homenagem à sua memória, seria Frederico, o recém-chegado.
[...]
(Sérgio Porto)
Os três primeiros parágrafos criam uma expectativa no leitor que é “quebrada” logo em seguida. Trata-se: